O preço silencioso de uma educação sem exigência

ARTIGO DE OPINIÃO

Quando o Estado transforma a aprovação em política pública, não está protegendo o aluno — está hipotecando o futuro do país

Por: Claudio Jacoski  |  Doutor em Engenharia de Produção, pesquisador em tecnologia e gestão da inovação,  Reitor da Unochapecó-Licenciado e Presidente do CRUB (Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras)-Licenciado.

Há um conforto perigoso nas notícias sobre educação. Nos últimos anos, o Brasil passou a registrar taxas de aprovação no Ensino Médio próximas de 95%. Os números, porém, ocultam o que realmente importa: o que o jovem aprendeu antes de ser aprovado.

A educação brasileira revela uma profunda contradição. De um lado, um sistema que empurra o aluno de série em série e trata a reprovação como um fracasso institucional. De outro, a realidade das universidades, onde professores se deparam com estudantes incapazes de realizar operações matemáticas elementares, com graves dificuldades de leitura, escrita e interpretação.

O Censo Escolar recentemente divulgado aponta uma queda expressiva no abandono escolar e uma aprovação de 94,8% no Ensino Médio. À primeira vista, parece um avanço. Contudo, qualquer educador experiente sabe que há algo errado quando um sistema se aproxima da aprovação universal. Em contextos que exigem qualidade e rigor acadêmico, taxas de reprovação próximas de zero são improváveis.

O Brasil investe cerca de US$ 3,8 mil por aluno por ano na educação básica, valor inferior ao de países vizinhos e equivalente a apenas um terço da média dos países da OCDE. Embora o financiamento seja insuficiente, ele não explica sozinho o problema. Países com investimentos semelhantes alcançam resultados muito superiores.

A isso soma-se uma crise silenciosa na formação docente. Mais de 80% das licenciaturas são ofertadas na modalidade a distância, muitas vezes sem proporcionar experiências compatíveis com a complexidade do ambiente escolar. Além disso, avaliações do próprio Ministério da Educação indicam que uma parcela significativa dos professores não demonstra domínio adequado dos conteúdos que leciona.

O problema ganha contornos dramáticos quando lembramos que os profissionais formados hoje atuarão por décadas na sociedade. Estamos certificando futuros engenheiros, médicos, advogados e gestores sem garantir que possuam conhecimentos básicos indispensáveis. O Enamed, aplicado pela primeira vez no ano passado, evidenciou sérias fragilidades na formação médica em dezenas de cursos regularmente autorizados.

A universidade, que deveria aprofundar conhecimentos, tem sido obrigada a retroceder, oferecendo disciplinas de nivelamento para suprir lacunas da educação básica. É preciso afirmar com clareza: a reprovação, quando necessária, também é um ato de formação.

O país necessita de uma agenda educacional que combine permanência e exigência, fortaleça a formação presencial e continuada dos professores, restabeleça a autoridade pedagógica docente e avalie os estudantes com critérios claros e consequências reais. Limitar-se a celebrar índices de aprovação pode representar um grave estelionato social, comprometendo o futuro da juventude e do desenvolvimento nacional.

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